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8 de março de 2016

[Resenha] Aniquilação (ou: Lost, só que mais estranho)

Tìtulo: Aniquilação (Original: Annihilation)
Autor: Jeff VanderMeer
Editora: Intrínseca

Instagram ;) 


Esse é um dos livros mais diferentes que eu já li. Embora eu consiga fazer algumas ligações com Lost e, de certos modos, me lembre o estilo do Stephen King, esse livro continua bem diferente de tudo que eu tenho lido.

E eu fiquei apavorada e presa nele até a última página.



 "Aniquilação" é o confuso primeiro volume da trilogia Comando Sul, de Jeff VanderMeer. Antes de qualquer outra coisa,  eu quero dizer que esse é o adjetivo da vez: confuso. Guarda essa palavra chave.

Começando pelo fato de as protagonistas desse volume não terem nome - são tratadas apenas como "a bióloga", "a psicóloga", "a antropóloga", "a topógrafa", etc -, a narrativa é linear mas demora a fazer sentido. Narrada pela bióloga dos tempos atuais, a história inteira já aconteceu e o que estamos lendo é o relato cru e sem tempero da bióloga em seu 'diário de bordo'.

A expedição da qual ela faz parte é uma iniciativa para conhecer melhor a Área X, um lugar que ninguém tem certeza de como funciona, de porque existe, de como se chega, enfim, um lugar que é isso mesmo: uma Área X onde nada faz muito sentido. Com uma natureza impressionante e assustadora, a expedição está em busca de 'informações' e não fica bem claro quais. E só isso mesmo. Vamos ali buscar umas informações nesse lugar misterioso e perigoso de onde ninguém volta são, apenas porque sim.

O que ninguém sabe - ou talvez saibam e seja tudo parte de um experimento - é que o marido da bióloga (que também não tem nome) foi membro de uma expedição anterior para a Área X e voltou bem malucão para logo morrer de câncer, como todos os membros que voltaram. Kinda creepy.

A história vai ficando mais densa, mais assustadora e mais (pega essa palavra chave) confusa. Conforme a narrativa avança, fica impossível parar de ler. Mesmo que cada nova informação traga mais perguntas do que respostas (meio Lost mesmo), não dá para não continuar.

O final deixa todas as pontas soltas e fica meio "ué", mas a experiência da leitura, pelo menos para mim, foi incrível. Fiquei tensa, mergulhei na história e me senti alerta a ponto de levar sustinhos com os barulhos da casa enquanto eu terminava de ler o último capítulo.

Já estou pronta para ler o volume 2 da trilogia, mas mesmo se eu continuar sem entender nada, as sensações desse livro já valeram a pena. Mal posso esperar para as próximas maluquices que o VanderMeer preparou!

Você já leu esse? Está lendo algum? Me conta nos comentários :)

28 de fevereiro de 2016

[Resenha] À sombra da figueira (ou: Poliana cambojana)

Título: À sombra da figueira (Original: In the shadow of the banyan)
Autor: Vaddey Ratner
Editora: Geração Editorial


Esse livro chegou às minhas mãos com uma indicação tão forte e bem recomendada que ele acabou passando a frente na fila. Não me arrependi em nenhum momento da leitura.Acho que essa é uma das histórias mais belamente escritas que eu já tive a oportunidade de ler. Forte, triste, tenso, tudo isso também. Mas acima de tudo: lindo.

O contexto histórico do livro - a ascensão do grupo comunista Khmer Vermelho no Camboja, que se transformou em uma das ditaduras mais sangrentas da História - é visto através da perspectiva de Raami, membro da família real cambojana, uma menina de 7 anos sensível e curiosa. A vida de Raami no palácio é cheia de cores, de vida e de pequenas alegrias, que ela vive e aproveita com doçura.

"(...) em uma profusão de sedas coloridas que quase ofuscou os pássaros e borboletas ao redor, reunímo-nos no pavilhão de jantar (...). Mais uma vez, mamãe havia se transformado, desta vez de borboleta em jardim. Todo seu ser germinava flores." (p.17)

Conhecendo sua vida e seu relacionamento com a família - a mãe, a irmã Radana, a Rainha Avó, os empregados e principalmente o pai -, é difícil acreditar no quanto as coisas mudam dali para a frente na história. Só não muda a maneira extremamente lírica e sensível com que Raami observa e sente o mundo onde está.

Arrancados de sua vida quanto o Khmer Vermelho toma o poder, Raami e a família são guiados para cada vez mais longe de sua casa, de sua cidade, de tudo o que conhecem. Uma jornada sem retorno começa mas, incentivada pelo pai poeta e fiel aos deuses e a Buda, a menina continua firme em seu propósito de enxergar além do que se vê. Uma versão cambojana da Poliana e seu jogo do contente.

"Conhecer vem de aprender; encontrar vem de procurar. Ficou claro para mim o significado da mensagem. Se eu olhasse o suficiente, se procurasse, encontraria o que estava procurando. Ali, no solo ensombrado da figueira de bengala, o templo abrigava pequenos reflexos do paraíso que havíamos deixado para trás" (p.94)

Em seu caminho, Raami se depara com violência, fome, cansaço e perdas. Sem tempo para se despedir de tudo que vai ficando cada vez mais distante, a menina vai se adaptando a realidades cada vez mais difíceis e solitárias, sem perder nunca a força e a empatia que ao mesmo tempo a conforta e a deixa aflita, querendo abraçar as dores do mundo.

"Big Uncle me deu um sorriso amarelo e por um momento esqueci minha infelicidade, pensando quão horrível era ser esse gigante com seu enorme sofrimento, sem ninguém para confortá-lo do jeito que eu, em minha pequenez, podia ser confortada". (p.291)

Narrado em primeira pessoa, de modo íntimo, pessoal e sincero, À Sombra da Figueira é um livro para mergulhar. É impossível ler e se manter indiferente aos sentimentos de Raami. Impossível não sentir suas dores e chorar suas perdas.

Mais doloroso ainda é ler a nota da autora, no final do livro, em que ela conta sua relação com a ditadura cambojana, que ela viveu aos 5 anos. Em parte autobiográfico, em parte tributo às tantas milhares de vidas perdidas, essa é uma história para guardar com carinho e revisitar sempre que possível.

Algumas histórias não podem nem devem ser esquecidas. Essa é uma delas.

21 de fevereiro de 2016

[Resenha] Mentirosos (ou: eu sei o que você fez no verão passado)

Título: Mentirosos (Original: We were liars)
Autor: E. Lockhart
Editora: Seguinte

Resenha mais curta no Instagram :)

Eu li a sinopse e não entendi o que ia acontecer no livro. Comecei a história sem nenhum contexto, sem saber direito onde aquilo ia me levar. E me levou longe.


A narração tem como protagonistas os Sinclair, uma tradicional família rica americana, com todo o seu porte, sua pompa e seus segredos. Nós os conhecemos por meio de Cadence, a primeira neta do magnata Harris Sinclair, uma adolescente de 17 anos com um passado nebuloso.

Todos os verões, Cadence, sua mãe, tias e primos se reúnem na ilha particular (!) da família, para passar as férias todos juntos com os avós. Cady tem uma relação próxima com seus dois primos, Johnny e Mirren, e com Gat, o sobrinho adotivo de uma das tias. Os quatro tem a mesma idade e se encontram todos os anos para viver aquele mundo de sonho e de aventuras. A família os chama de "mentirosos".Com personalidades complementares, os Mentirosos formam um time imbatível.

"Nós quatro, os Mentirosos, sempre fomos.
Sempre seremos. 
(...)
Essa ilha é nossa. Aqui, de certo modo, somos jovens para sempre."
p.150

No verão dos quinze anos, Cadence sofre um acidente. Ela se lembra de poucos flashs da história, tem pequenos lampejos dolorosos de lembranças sobre as quais ninguém quer falar. Durante os dois anos seguintes, Cadence é impedida de ir para a ilha. Sem notícias, sem informações e sem contato com seus três melhores amigos, Cady sofre com o vazio de sua memória e com constantes dores de cabeça que a incapacitam por dias a fio. Cansada das negativas da mãe em recontar o que houve e do silêncio do restante da família, Cady insiste.

No verão dos dezessete, Cadence volta à ilha para tentar reconstruir sua memória e finalmente entender o que aconteceu.

Enquanto enfrenta seus fantasmas e busca por vestígios da própria história, Cadence vai aos poucos se dando conta de que a vida de sonho dos Sinclair também é uma vida de segredos, de renúncias, de perdas. Uma vida cercada de pequenas dores esmagadas por sorrisos forçados, roupas caras, status social. Os Sinclair vivem vidas reais que não tem espaço dentro dos limites da ilha. Se moldam para caber na realidade mitológica que criaram para si mesmos.

A estrutura do texto é fragmentada, com idas e voltas do passado, confusa como a mente de sua narradora. As linhas de raciocínio são frágeis e muitas frases ficam no ar, outras tantas só fazem sentido depois da resolução do mistério. Apenas uma amostra da bagunça interna de Cady.

A resolução do mistério cai como uma bomba. O que aconteceu no verão dos quinze deixou cicatrizes profundas e ainda faz eco em todas as decisões da família desde então. É um final que te abala, te confunde e deixa uma sensação de solidão. O preço que se paga para se manter a aura mística da família é tão alto que dói em todos os envolvidos - inclusive o leitor.

A obsessão de Cadence com os contos de fada é mostrada de uma forma ao mesmo tempo forte e delicada, assim como toda a narrativa alterna entre trechos líricos e brutalmente diretos. O livro é uma coleção de opostos e mesmo o final, com um enredo tão bem trabalhado que não poderia ser diferente, continua sendo inesperado. É um livro para despertar sensações e provocar reflexões. Com certeza vou procurar mais títulos da autora para ler! Essa é uma história que vai seguir comigo por um bom tempo.

Tem alguma sugestão de livro ou quer fazer algum comentário? Agora você pode manter contato comigo no Facebook! Curta a página do blog por lá: www.facebook.com/leiturasdaline ;)

13 de fevereiro de 2016

[Resenha] - O Livro do cemitério (ou: Os fantasmas se divertem)







Título: O Livro do Cemitério (Original: The Graveyard Book)
Autor: Neil Gaiman; ilustrações de Dave McKean
Editora: Rocco Jovens Leitores


 Resenha curtinha lá no Instagram :)







Comentei com uma amiga que queria ler os livros do Neil Gaiman, porque já era fã dele nos roteiros de Sandman e queria conhecer mais. Eis que ela me empresta "O Livro do Cemitério" e a sinopse já me prende: um bebê fugindo de um assassino que matou sua família entra em um cemitério e é acolhido e criado pelos habitantes (mortos) do lugar. E aí?

E aí que, com um autor comum, essa premissa podia levar para dois lados: 1) uma história carregada de suspense ou 2) uma comédia com os fantasmas vivendo grandes aventuras na sessão da tarde. Mas nas mãos de Gaiman a história cresce: os fantasmas são mais que fantasmas, o assassino é mais que um assassino, a criança é mais que uma criança. Em uma história para adolescentes, é bem legal a densidade e a humanidade que os personagens todos tem.

Acompanhando o crescimento de Ninguém (o nome do bebê) Owens (o sobrenome do casal fantasma que o adota), o que vemos é uma criança curiosa e disposta a saber mais sobre o mundo e como ele funciona. Comum em tudo, menos no fato de que o mundo que ele vive é o fantástico e o que ele fantasia é o que existe fora dos muros do cemitério.

Mistura de Rapunzel e Peter Pan, Ninguém - ou Nin - é um rapazinho que quer ver o mundo mas está muito bem, obrigado, do jeito que está. Com um mentor vampiro, pais fantasmas e uma "crush" que pensa nele como amigo imaginário, o menino está sendo caçado por uma seita de assassinos saída de um livro do Dan Brown. Nin entende um total de zero coisas da situação, e o leitor também. Mesmo depois das explicações, isso tudo é secundário. O foco fica inteiro no desenvolvimento emocional e intelectual de Nin, cercado dos personagens incríveis que foram enterrados ali.

A estrutura da história é uma sequência de crônicas do cotidiano do menino, embora não exista uma divisão clara disso. As várias pequenas histórias da vida de Nin entre os mortos se cruzam e tornam a história mais cheia de vida (desculpe o trocadilho). O resultado é um livro leve, com uma leitura dinâmica e muita personalidade. Ótimo companheiro para ler entre livros mais pesados e densos. :)

Destaque para as ilustrações LINDAS do Dave McKean que dão um belo descanso para a imaginação ilustrando trechos importantes da história.

Tem algum livro do Neil Gaiman para me indicar? Me manda que estou interessada! :D