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23 de janeiro de 2018

[Lista] 3 rolês literários para fazer em São Paulo (ou: feliz 464 anos!)


Em um dia 25 de janeiro, em 1554, o padre jesuíta José de Anchieta fundou São Paulo, essa cidade linda e caótica que eu chamo de lar. Paulistaninha que sou, de comer bolacha e marcar encontro na catraca do metrô, separei 3 rolês literários para curtir na cidade. Que tal aproveitar o feriado (ou a emenda) para um passeio delícia? Dê uma olhada na lista e escolha o seu preferido, bêu!

1. Comprar um livro em um dos sebos da cidade

Sebo do Messias
Foto: Flickr/Gustavo Leutwiler Fernandez

Um livro é sempre um tesouro, mas encontrar um livro bacana depois de garimpar em um sebo é ainda mais legal (principalmente se você pagar baratinho!). Um livro de sebo é um livro com duas histórias: a do livro e a de todas as mãos pelas quais ele já passou. Dê uma olhada nessa lista de sebos da Estante Virtual e escolha um para visitar. Que tal começar pelo Sebo do Messias, que fica pertinho da Praça da Sé e do Páteo do Colégio? Dê uma volta no centro histórico e aproveite para voltar pra casa com um livro novo (só que velho)!

(Mas caso você seja alérgico, tasca um anti-histamínico na bolsa para dão vicar valando azim.)

2. Participar de uma roda de contação de histórias

contação de histórias na biblioteca de são paulo
Foto: Biblioteca de São Paulo

Ouvir alguém contar uma história é tipo ler, só que com outra pessoa intermediando. E isso ás vezes é uma coisa muito legal: cada um dá seu próprio toque para a história, o que quer dizer que mesmo que você já tenha escutado ou lido antes, é sempre uma coisa nova. Junte os pequenos (ou os grandes) e participe de uma roda de histórias! O Museu AfroBrasil, no Parque do Ibirapuera, promove no dia 27/1 uma roda de histórias africanas e afrobrasileiras, mas também dá para participar da Hora do Conto, na Biblioteca de São Paulo, ou assistir a leitura de "O Homem-Cão", em um dos shoppings da cidade, com programação da Companhia das Letras até dia 3/2.

E se você animar, pode até se inscrever em um curso de contação de histórias!

3. Passear (e fazer sua carteirinha) em uma das bibliotecas da cidade

Biblioteca Mário de Andrade São Paulo
Foto: Flickr/Cris Castello Branco/Governo do Estado de SP


Segundo o site da prefeitura de São Paulo, temos 106 bibliotecas espalhadas por todas as regiões da cidade. Que tal aproveitar a folga e descobrir qual é a mais próxima de você? Faça a sua carteirinha e comece as visitas! Nos sistemas online, também dá para consultar o acervo e até renovar o empréstimo de algum livro que você ainda esteja terminando de ler. Algumas dessas bibliotecas são espaços lindos e multiculturais que valem a visita e contam como passeios. Que tal dar uma volta pelo Parque da Juventude e aproveitar para explorar o acervo da Biblioteca de São Paulo? Outra boa pedida é a Biblioteca Mário de Andrade, na Rua da Consolação - conheça o espaço e aproveite para passear na Av. Paulista!

Também dá para checar a programação cultural das bibliotecas nesse link! ;)

_________________________

E aí, gostou? Aproveite o aniversário da cidade para explorar as livrarias, bibliotecas e museus de São Paulo! Curta muuuuito e, se visitar alguma das sugestões, me marca no Instagram: @blog.alineleu! Vou adorar te acompanhar nessa. ;)

10 de janeiro de 2018

[RESENHA] Tá todo mundo mal (ou: bendita seja a crise)


Capa do livro - Tá todo mundo mal - O livro das crises, Jout Jout, Júlia Tolezano, ResenhasFicha técnica:

Título: Tá todo mundo mal - O livro das crises
Autor: Jout Jout
Ano: 2016
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐


Eu tenho um grupo de amigas que venho cultivando desde, aproximadamente, 2005. Nós temos muito em comum e, ao mesmo tempo, somos incrivelmente diferentes. O que é ótimo e, para ser bem sincera, é provavelmente um dos motivos de essa parceria funcionar: somos complementares. Esse contexto todo para chegar ao livro alvo dessa resenha, "Tá todo mundo mal", tem dois motivos. O primeiro é que ganhei esse livro de uma dessas amigas, na última edição do nosso amigo-secreto anual. O segundo é que, por mais diferentes que sejamos umas das outras, as crises (várias parecidas com as da Jout Jout) sempre nos uniram.

Gosto muito dos vídeos da Júlia então já fazia muito tempo que eu queria ler esse livro. Vários motivos foram adiando a leitura e, por fim, quando consegui ler, já tinha passado mais de um ano do lançamento. Lendo, me identifiquei com várias coisas, não me identifiquei com várias outras. Exatamente como acontece quando falo com as minhas amigas.

Ler esse livro dá mesmo essa sensação gostosa, esse calorzinho no peito de ter uma conversa boa com uma amiga de muito tempo. Essa certeza de que não é preciso conquistar, impressionar, disfarçar, se justificar. São só pessoas familiares ao redor, que já te viram no seu melhor e no seu pior, e continuaram ali por perto. Mesmo quando a vida nos afasta um pouco, basta um pouco de boa vontade mútua e voi-lá! Eis um laço forte e pronto para a próxima crise.

É assim que Jout Jout estrutura esse livro, pulando de crise em crise, da infância à adultecência. Com um texto leve e brincalhão (assim como nos vídeos), Júlia pega a gente pela mão e vai te apontando as paredes cheias de memória, dizendo, empolgadíssima: "OLHA, AQUILO ALI FOI DA VEZ QUE QUASE MORRI", como quem mostra um álbum de fotos. Como quem já te conhece há anos. E você vai, acompanhando feliz da vida, com aquele sorriso bobo de quem já ouviu a mesma história mil vezes mas com certeza vai ouvir de novo e hoje tá com paciência para ouvir outra vez, com detalhes.

Nesse livro, Jout coloca em prática seu grande dom: provocar empatia. Colocando pra fora suas crises, mágoas, medos e lições, Júlia nos trata como amigos íntimos e, dando aquele abracinho nos ombros, reforça que tá todo mundo mal, e tudo bem. Exatamente como os amigos fazem.

15 de junho de 2016

[Resenha] O canto do Dodô (ou: a Louca-da-Biologia)

O canto do Dodô David Quammen Resenha Biologia Ciências Extinções
Título: O canto do Dodô (Original: The song of the Dodo)
Autor: David Quammen
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Romance/Ciências Bilógicas
Ano: 2008

Instagram :)

Esse livro me ganhou na sinopse. Eu estava numa feira de livros (a mesma em que comprei "Diga aos lobos que estou em casa") e estava sendo muito cuidadosa para escolher, porque só poderia levar 2. Mas quando eu li a contracapa e entendi que esse seria um livro para entender o que estava acontecendo com o mundo e qual era a nossa parte nisso (enquanto humanidade), eu virei a louca-da-biologia, saí por aí carregando esse livro de 700 páginas na bolsa para todos os cantos e passei o mês inteiro falando sobre ele com todo mundo que eu pude.

Foi um mês divertido para todo mundo que estava perto, como vocês podem imaginar.

Escrito pelo jornalista David Quammen, esse livro levou vários anos para ser escrito e envolveu muita pesquisa, tanto bibliográfica quanto de campo. Quammen, no maior estilo Richard Rasmussen, visitou as ilhas mais longínquas do planeta para ilustrar o tamanho do problema em que estamos metidos: uma extinção em massa, grande como a do meteoro que inviabilizou a vida dos dinossauros. Só que dessa vez a natureza não tem muito a ver com isso. É, basicamente, culpa da nossa interferência no ambiente.

"Houve extinções antes e muitas extinções desde então, mas a extinção do dodô foi particularmente importante porque foi a primeira vez, a primeira vez em toda a história da humanidade, que o homem se deu conta de que ele havia provocado o desaparecimento de uma espécie."

Não vou desenvolver aqui todos os exemplos, tão sensacionais quanto o do Dodô, trazidos pelo Quammen nesse livro, porque todos eles são muito válidos e muito interessantes. Quammen personifica a luta pela preservação das espécies por meio de personagens muito interessantes, cientistas, pesquisadores, ambientalistas, moradores locais, populações inteiras, cidades, ilhas. Suas histórias enriquecem a narrativa e tornam o debate mais pessoal: o que as pessoas estão fazendo pelas espécies ameaçadas? E o que EU poderia estar fazendo?

Apesar da situação alarmante e do tom muitas vezes técnico, esse também é um livro com muitas tiradas engraçadas. Quammen é um narrador divertido, capaz de extrair uma risada até mesmo de situações mais tensas. Seu bom humor durante as situações mais inusitadas – um quase naufrágio, um assalto no Rio de Janeiro, visitar uma ilha habitada somente por formigas, conhecer uma pessoa que cria lagartos como se fossem gatinhos, etc – traz uma leveza que facilita a leitura e torna o assunto menos apavorante. "O mundo está acabando, sim, mas ouve esse causo, que bacana". Sei lá, me identifico.

"Segundo Darwin, as tartarugas de Santiago eram mais arredondadas e também mais pretas, além de terem 'melhor sabor quando cozidas' (Hoje em dia, os taxonomistas de tartarugas têm de abrir mão das evidências do paladar)"

Esse é um livro de grandes questões. Quanto tempo ainda temos antes de um colapso generalizado? Alguma dessas situações ainda é reversível? As espécies ameaçadas ainda tem chances de sobreviver? Quammen busca algumas dessas respostas, mas esse não é o objetivo central da narração. O que ele quer é instigar o debate. As ideias podem surgir de qualquer lugar, por mais improvável que pareça, por isso é extremamente importante que a gente continue divulgando as grandes perguntas.

Mesmo sendo um livro complicado de ler (tanto pelo peso teórico quanto pelo peso literal das 700 páginas), recomendo a todos que têm interesse em biologia, atualidade e meio ambiente. É um livro bem interessante, com dados científicos traduzidos para nós, que não somos cientistas. Vale a leitura e vale, principalmente, a reflexão. Até onde nosso estilo de vida vai nos levar?

O Canto do Dodô - Editora Companhia das Letras - David Quammen - Resenha - Avaliação - Ranking

Bônus - Essa reflexão saída diretamente das páginas desse livro:

O canto do dodô David Quammen Resenha Avaliação Trecho Citação História


12 de abril de 2016

[Resenha] As esganadas (ou: motivos para temer pasteizinhos de nata)

Título: As esganadas
Autor: Jô Soares
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2011

Instagram :P


Minha mãe chegou em casa com esse livro e me perguntou o que eu já tinha lido do Jô Soares. E fora alguns textos e frases soltos (de autoria questionável), eu não tinha lido nada. Foi uma ótima oportunidade de resolver isso.

Eu já tinha assistido a adaptação cinematográfica de um livro do Jô - O Xangô de Baker Street - e lembro de ter achado um pouco estranho. Essa coisa de misturar serial killers, história do Brasil, detetive lusitano e humor talvez seja característica dele, já que a estrutura se repete claramente em "As esganadas".

Sem paciência para grandes mistérios, nosso assassino e sua motivação já são revelados logo no início da história, assim como acompanhamos seus planos e triunfos ao longo da narrativa. As vítimas da vez são mulheres gordas, moradoras de um Rio de Janeiro dos anos 30 perfeitamente contextualizado pelo autor, seduzidas pela possibilidade de doces portugueses de graça.

Os personagens, de modo geral, são carismáticos e divertidos, pessoas que é fácil imaginar em um filme ou novela (mas não na vida real). Desde o caricato Tobias Esteves, nosso detetive lusitano, até os funcionários da delegacia, a jornalista charmosa e sagaz e a esposa-troféu, todos os personagens são exatamente isso: personagens, tipos bem estruturados e impossíveis, repletos de clichês e piadas.

É um livro sem grandes desafios, um entretenimento rápido e seguro, com personagens fáceis de reconhecer na nossa ficção.

Vale a leitura, mas não espere um livro de horror ou de mistério. Jô Soares é um comediante e nesse livro brinca com a morte e a crueldade como faria em uma esquete de TV.

21 de fevereiro de 2016

[Resenha] Mentirosos (ou: eu sei o que você fez no verão passado)

Título: Mentirosos (Original: We were liars)
Autor: E. Lockhart
Editora: Seguinte

Resenha mais curta no Instagram :)

Eu li a sinopse e não entendi o que ia acontecer no livro. Comecei a história sem nenhum contexto, sem saber direito onde aquilo ia me levar. E me levou longe.


A narração tem como protagonistas os Sinclair, uma tradicional família rica americana, com todo o seu porte, sua pompa e seus segredos. Nós os conhecemos por meio de Cadence, a primeira neta do magnata Harris Sinclair, uma adolescente de 17 anos com um passado nebuloso.

Todos os verões, Cadence, sua mãe, tias e primos se reúnem na ilha particular (!) da família, para passar as férias todos juntos com os avós. Cady tem uma relação próxima com seus dois primos, Johnny e Mirren, e com Gat, o sobrinho adotivo de uma das tias. Os quatro tem a mesma idade e se encontram todos os anos para viver aquele mundo de sonho e de aventuras. A família os chama de "mentirosos".Com personalidades complementares, os Mentirosos formam um time imbatível.

"Nós quatro, os Mentirosos, sempre fomos.
Sempre seremos. 
(...)
Essa ilha é nossa. Aqui, de certo modo, somos jovens para sempre."
p.150

No verão dos quinze anos, Cadence sofre um acidente. Ela se lembra de poucos flashs da história, tem pequenos lampejos dolorosos de lembranças sobre as quais ninguém quer falar. Durante os dois anos seguintes, Cadence é impedida de ir para a ilha. Sem notícias, sem informações e sem contato com seus três melhores amigos, Cady sofre com o vazio de sua memória e com constantes dores de cabeça que a incapacitam por dias a fio. Cansada das negativas da mãe em recontar o que houve e do silêncio do restante da família, Cady insiste.

No verão dos dezessete, Cadence volta à ilha para tentar reconstruir sua memória e finalmente entender o que aconteceu.

Enquanto enfrenta seus fantasmas e busca por vestígios da própria história, Cadence vai aos poucos se dando conta de que a vida de sonho dos Sinclair também é uma vida de segredos, de renúncias, de perdas. Uma vida cercada de pequenas dores esmagadas por sorrisos forçados, roupas caras, status social. Os Sinclair vivem vidas reais que não tem espaço dentro dos limites da ilha. Se moldam para caber na realidade mitológica que criaram para si mesmos.

A estrutura do texto é fragmentada, com idas e voltas do passado, confusa como a mente de sua narradora. As linhas de raciocínio são frágeis e muitas frases ficam no ar, outras tantas só fazem sentido depois da resolução do mistério. Apenas uma amostra da bagunça interna de Cady.

A resolução do mistério cai como uma bomba. O que aconteceu no verão dos quinze deixou cicatrizes profundas e ainda faz eco em todas as decisões da família desde então. É um final que te abala, te confunde e deixa uma sensação de solidão. O preço que se paga para se manter a aura mística da família é tão alto que dói em todos os envolvidos - inclusive o leitor.

A obsessão de Cadence com os contos de fada é mostrada de uma forma ao mesmo tempo forte e delicada, assim como toda a narrativa alterna entre trechos líricos e brutalmente diretos. O livro é uma coleção de opostos e mesmo o final, com um enredo tão bem trabalhado que não poderia ser diferente, continua sendo inesperado. É um livro para despertar sensações e provocar reflexões. Com certeza vou procurar mais títulos da autora para ler! Essa é uma história que vai seguir comigo por um bom tempo.

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