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10 de janeiro de 2018

[RESENHA] Tá todo mundo mal (ou: bendita seja a crise)


Capa do livro - Tá todo mundo mal - O livro das crises, Jout Jout, Júlia Tolezano, ResenhasFicha técnica:

Título: Tá todo mundo mal - O livro das crises
Autor: Jout Jout
Ano: 2016
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐


Eu tenho um grupo de amigas que venho cultivando desde, aproximadamente, 2005. Nós temos muito em comum e, ao mesmo tempo, somos incrivelmente diferentes. O que é ótimo e, para ser bem sincera, é provavelmente um dos motivos de essa parceria funcionar: somos complementares. Esse contexto todo para chegar ao livro alvo dessa resenha, "Tá todo mundo mal", tem dois motivos. O primeiro é que ganhei esse livro de uma dessas amigas, na última edição do nosso amigo-secreto anual. O segundo é que, por mais diferentes que sejamos umas das outras, as crises (várias parecidas com as da Jout Jout) sempre nos uniram.

Gosto muito dos vídeos da Júlia então já fazia muito tempo que eu queria ler esse livro. Vários motivos foram adiando a leitura e, por fim, quando consegui ler, já tinha passado mais de um ano do lançamento. Lendo, me identifiquei com várias coisas, não me identifiquei com várias outras. Exatamente como acontece quando falo com as minhas amigas.

Ler esse livro dá mesmo essa sensação gostosa, esse calorzinho no peito de ter uma conversa boa com uma amiga de muito tempo. Essa certeza de que não é preciso conquistar, impressionar, disfarçar, se justificar. São só pessoas familiares ao redor, que já te viram no seu melhor e no seu pior, e continuaram ali por perto. Mesmo quando a vida nos afasta um pouco, basta um pouco de boa vontade mútua e voi-lá! Eis um laço forte e pronto para a próxima crise.

É assim que Jout Jout estrutura esse livro, pulando de crise em crise, da infância à adultecência. Com um texto leve e brincalhão (assim como nos vídeos), Júlia pega a gente pela mão e vai te apontando as paredes cheias de memória, dizendo, empolgadíssima: "OLHA, AQUILO ALI FOI DA VEZ QUE QUASE MORRI", como quem mostra um álbum de fotos. Como quem já te conhece há anos. E você vai, acompanhando feliz da vida, com aquele sorriso bobo de quem já ouviu a mesma história mil vezes mas com certeza vai ouvir de novo e hoje tá com paciência para ouvir outra vez, com detalhes.

Nesse livro, Jout coloca em prática seu grande dom: provocar empatia. Colocando pra fora suas crises, mágoas, medos e lições, Júlia nos trata como amigos íntimos e, dando aquele abracinho nos ombros, reforça que tá todo mundo mal, e tudo bem. Exatamente como os amigos fazem.

29 de agosto de 2016

[Resenha] Cuidado com pessoas como eu (ou: uma história sobre o lado de dentro)

Resenha - Cuidado com pessoas como eu - Eduardo Baszczyn
Título: Cuidado com pessoas como eu
Autor: Eduardo Baszczyn
Ano: 2012
Editora: 7 Letras
Gênero: Romance/ Literatura Nacional
Avaliação: ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐

Resenha no instagram :)

Eu já acompanho os escritos do Eduardo Baszczyn há um bom tempo. Quando conheci o blog dele, o ótimo "Coisas da Gaveta", fiquei encantada pelos textos curtos e poéticos, pela crueza e verdade que eu via neles. Infelizmente não tive como comprar os dois livros dele em seus lançamentos, mas esse ano tem sido um ano de resolver pendências e eu finalmente comprei, no Estante Virtual, o "Cuidado com pessoas como eu" e o "Desamores".

Li "Cuidado" em pouco tempo e alguns dos trechos desse livro me acertaram em cheio, bem no meio dos sentimentos que eu estava deixando para lá. Enquanto ouvimos o monólogo de Luísa, que se recusa a abrir a porta para o ex-amor do lado de fora, aprendemos mais sobre o lado de dentro do apartamento – e sobre o lado de dentro de Luísa.

Essa não é uma história linear e, por seguir a linha de raciocínio de uma Luisa perdida, às vezes é repetitivo e se perde no caminho. Em alguns momentos é um pouco cansativo tentar compreender a linha temporal que a narrativa segue, mas é preciso abrir mão disso para aproveitar a leitura. Nossa narradora não está interessada em fazer sentido, mas em desabafar. Luísa quer preencher o silêncio das páginas em branco e o nosso papel, enquanto ouvintes-leitores, é só esse. Ouvir. Ler. Aceitar Luísa. E só.

O livro inteiro é uma provocação de sentimentos e ações que te prende e te incomoda. Tentar absorver a história toda e reconstruir em nossa imaginação o relacionamento vivido por Luísa é uma tarefa difícil e que exige boa vontade. Assim como todos nós, Luísa é parcial e não podemos tomar sua versão como absoluta. Como em “Dom Casmurro”, em que a versão de Bentinho não é suficiente para condenar Capitu, em “Cuidado com Pessoas como Eu”, saber a versão de Luísa não é o bastante para julgar nenhum dos demais personagens. A versão de Luísa diz respeito apenas a ela e, em seu íntimo, é a sua verdade.

A narrativa de Baszczyn é lírica, crua e difícil, tanto no livro quanto no blog. Gostando ou não, ao ler “Cuidado com pessoas como eu”, fica uma certeza: não é possível ficar indiferente diante de tanta poesia.



8 de julho de 2016

[Resenha] Todo dia (ou: uma reflexão sobre o amor)

Todo Dia Every Day David Levithan Editora Galera Record Resenha Avaliação Imagem
Título: Todo Dia (Every Day)
Autor: David Levithan
Ano: 2013
Editora: Galera Record
Gênero: Romance / Literatura Estrangeira
Classificação:  ⭐ ⭐ ⭐ ⭐ ⭐

O amor é uma grande coincidência. Encontrar com a alma certa, no momento certo, é uma raridade. Quando um encontro como esse acontece, é preciso agarrar a oportunidade com unhas e dentes. Mas e quando a alma que você encontrou troca de corpo todas as manhãs? 

A proposta desse livro lindo do David Levithan é essa: contar a história de A., uma alma sem corpo, e seu encontro com Rhiannon. A condição de A., de 16 anos, é extraordinária. A cada manhã, A. acorda em um novo corpo, uma nova vida, com novas lembranças e rotinas. Embora tenha consciência de que aquele corpo é de outra pessoa e consiga acessar todas as informações necessárias sobre a vida que vai viver aquele dia, A. sabe que na meia noite seguinte, será arrancado de onde está para acordar sabe-se lá onde, sabe-se lá porque. E tudo bem. A. está acostumado com isso. Está preparado. Não tem motivos para ficar.

Até acordar no corpo de Justin e conhecer Rhiannon. 

"Que história é essa sobre o instante em que você se apaixona? Como uma medida tão pequena pode conter algo tão grande? (...) O momento em que você se apaixona parece carregar séculos, gerações atrás de si - tudo isso se reorganizando para que essa intersecção precisa e incomum possa acontecer. Em seu coração, em seus ossos, por mais bobo que saiba que é, você sente que tudo levou a isso, que todas as flechas secretas estavam apontando para esse lugar, que o universo e o próprio tempo construíram isso muito tempo atrás, e agora você acaba de perceber que chegou ao local onde sempre deveria ter estado." - p. 25

O encontro dos dois é lindo, intenso, e a busca de A. para reencontrá-la todos os dias, independente do corpo em que esteja ou da vida que esteja levando, gera muitas metáforas importantes sobre os relacionamentos, abordando várias faces do desejo, da cultura, da renúncia e dos sacrifícios. Enquanto acompanhamos o desespero de A. para ficar ao lado de Rhiannon, vemos também a moça amadurecer e forçar A. a refletir sobre as necessidades reais do amor. 

Viver tantas vidas diferentes dá ao protagonista dessa história a chance de uma enorme reflexão sobre a cultura em sociedade e o fato de que, em essência, todas as vidas são parecidas. As pessoas querem viver, querem ser amadas, respeitadas, querem sentir que são necessárias. Somos, em resumo, 98% iguais, como A. cita em um trecho do livro, mas deixamos os 2% da diferença pesarem mais na balança. 

Nessa história linda e impecável, é impossível ficar indiferente. Essa é uma das histórias de amor mais bonitas que eu já conheci na ficção e estou bastante impressionada com o talento de Levithan, que transite com facilidade entre o lírico e o objetivo, e domina o texto de uma forma que o livro pode ter um trecho muito divertido e no capítulo seguinte um muito emocionante. Levithan pega as palavras e as transforma no que bem entende. Já estou caçando outros livros dele para saber se isso acontece em todas as histórias que ele conta ou somente nessa.

P.S.: Me emocionei escrevendo a resenha, só de reler os trechos preferidos que eu tinha marcado. Que livro, gente. Que livro.
 

15 de junho de 2016

[Resenha] O canto do Dodô (ou: a Louca-da-Biologia)

O canto do Dodô David Quammen Resenha Biologia Ciências Extinções
Título: O canto do Dodô (Original: The song of the Dodo)
Autor: David Quammen
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Romance/Ciências Bilógicas
Ano: 2008

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Esse livro me ganhou na sinopse. Eu estava numa feira de livros (a mesma em que comprei "Diga aos lobos que estou em casa") e estava sendo muito cuidadosa para escolher, porque só poderia levar 2. Mas quando eu li a contracapa e entendi que esse seria um livro para entender o que estava acontecendo com o mundo e qual era a nossa parte nisso (enquanto humanidade), eu virei a louca-da-biologia, saí por aí carregando esse livro de 700 páginas na bolsa para todos os cantos e passei o mês inteiro falando sobre ele com todo mundo que eu pude.

Foi um mês divertido para todo mundo que estava perto, como vocês podem imaginar.

Escrito pelo jornalista David Quammen, esse livro levou vários anos para ser escrito e envolveu muita pesquisa, tanto bibliográfica quanto de campo. Quammen, no maior estilo Richard Rasmussen, visitou as ilhas mais longínquas do planeta para ilustrar o tamanho do problema em que estamos metidos: uma extinção em massa, grande como a do meteoro que inviabilizou a vida dos dinossauros. Só que dessa vez a natureza não tem muito a ver com isso. É, basicamente, culpa da nossa interferência no ambiente.

"Houve extinções antes e muitas extinções desde então, mas a extinção do dodô foi particularmente importante porque foi a primeira vez, a primeira vez em toda a história da humanidade, que o homem se deu conta de que ele havia provocado o desaparecimento de uma espécie."

Não vou desenvolver aqui todos os exemplos, tão sensacionais quanto o do Dodô, trazidos pelo Quammen nesse livro, porque todos eles são muito válidos e muito interessantes. Quammen personifica a luta pela preservação das espécies por meio de personagens muito interessantes, cientistas, pesquisadores, ambientalistas, moradores locais, populações inteiras, cidades, ilhas. Suas histórias enriquecem a narrativa e tornam o debate mais pessoal: o que as pessoas estão fazendo pelas espécies ameaçadas? E o que EU poderia estar fazendo?

Apesar da situação alarmante e do tom muitas vezes técnico, esse também é um livro com muitas tiradas engraçadas. Quammen é um narrador divertido, capaz de extrair uma risada até mesmo de situações mais tensas. Seu bom humor durante as situações mais inusitadas – um quase naufrágio, um assalto no Rio de Janeiro, visitar uma ilha habitada somente por formigas, conhecer uma pessoa que cria lagartos como se fossem gatinhos, etc – traz uma leveza que facilita a leitura e torna o assunto menos apavorante. "O mundo está acabando, sim, mas ouve esse causo, que bacana". Sei lá, me identifico.

"Segundo Darwin, as tartarugas de Santiago eram mais arredondadas e também mais pretas, além de terem 'melhor sabor quando cozidas' (Hoje em dia, os taxonomistas de tartarugas têm de abrir mão das evidências do paladar)"

Esse é um livro de grandes questões. Quanto tempo ainda temos antes de um colapso generalizado? Alguma dessas situações ainda é reversível? As espécies ameaçadas ainda tem chances de sobreviver? Quammen busca algumas dessas respostas, mas esse não é o objetivo central da narração. O que ele quer é instigar o debate. As ideias podem surgir de qualquer lugar, por mais improvável que pareça, por isso é extremamente importante que a gente continue divulgando as grandes perguntas.

Mesmo sendo um livro complicado de ler (tanto pelo peso teórico quanto pelo peso literal das 700 páginas), recomendo a todos que têm interesse em biologia, atualidade e meio ambiente. É um livro bem interessante, com dados científicos traduzidos para nós, que não somos cientistas. Vale a leitura e vale, principalmente, a reflexão. Até onde nosso estilo de vida vai nos levar?

O Canto do Dodô - Editora Companhia das Letras - David Quammen - Resenha - Avaliação - Ranking

Bônus - Essa reflexão saída diretamente das páginas desse livro:

O canto do dodô David Quammen Resenha Avaliação Trecho Citação História


29 de maio de 2016

[Resenha] Anexos (ou: poderíamos ser nós)

Anexos Rainbow Rowell Resenha Leitura Avaliação Livro
Tìtulo: Anexos (Original: Attachments)
Autor: Rainbow Rowell
Editora: Novo Século
Ano: 2014


Esse livro chegou com uma intimação: "Você precisa ler esse livro, somos nós duas nele". Quando alguém te diz isso, você não tem alternativa além de querer ler e começar imediatamente a procurar as semelhanças.

Mas antes de falar das semelhanças, bora apontar as diferenças que tornam esse livro um respiro no meio da mesmice que costumam ser os livros de romance contemporâneos. A sinopse já te dá uma pista: nosso protagonista é Lincoln, um programador de T.I. cujo trabalho é ler os e-mails dos funcionários do jornal para identificar se eles estão usando o e-mail de maneira imprópria. É no meio desse emprego bizarro que ele conhece nossas outras duas protagonistas, Jenny e Beth, uma revisora e uma jornalista. Mas ele não as conhece pessoalmente (nem nós, leitores). Tudo o que ele sabe sobre elas está contido nas conversas malucas, íntimas e intermináveis que elas desenvolvem em seus e-mails.

Para manter essa história de um jeito interessante, a autora alterna capítulos com estrutura comum, para narrar os pontos de vista de Lincoln, e capítulos inteiros sem narrador, apenas a transcrição dos e-mails trocados por nossas heroínas. E, lendo esses e-mails, a nossa reação é a mesma do menino-do-T.I.: nos encantamos por Beth e Jenny, queremos interagir com elas, ser amigas, trocar confidências. Lincoln vai além: de repente, descobre que está apaixonado por Beth.

Meio bizarro, eu sei. Mas no contexto fictício é uma gracinha, juro.

Durante a leitura, entendi bem rápido o comentário da minha amiga: podíamos mesmo ser nós duas, trocando e-mails durante o horário de trabalho e abrindo nossos corações para rir e para chorar. Eu vou além: Beth e Jenny poderiam ser qualquer um de nós que usamos a internet, que entendemos esse ambiente como uma extensão do nosso espaço, da nossa fala, como um ponto de encontro para ver os amigos e conversar.

A resolução da história força um pouco a barra, mas afinal de contas é um livro de romance, você precisa aceitar algumas coisas. Mas "Anexos" vale muito a pena a leitura, não pela história em si, mas por toda a forma com que ela se desenvolve, pela leveza e doçura com a qual Rainbow pega a nossa mão e nos conduz por toda a narrativa. Tenho certeza que você vai se identificar, se divertir e descobrir que o amor pode estar escondido em histórias extremamente improváveis.


Quatro estrelas para essa fofura :)

17 de maio de 2016

[Resenha] Quarto (ou: o estranho e lindo mundo de Jack)

Quarto de Jack Emma Donoghue Resenha Editora Verus
Título: Quarto (Room)
Autor: Emma Donoghue
Editora: Verus
Ano: 2011

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Esse livro chegou até mim emprestado, durante uma semana de licença médica em que tudo que eu precisava era companhia. Infelizmente não consegui ler nada durante a tal semana, mas li na semana seguinte e achei a leitura tão sensível e poderosa que acabei relendo alguns trechos.

Quando comecei a ler, já tinha visto o trailer do filme que adaptou a história para os cinemas, então Jack e sua Mãe já tinham rostos na minha imaginação. Isso foi útil, porque o livro não fornece muitas características físicas sobre os personagens (embora isso não faça tanta falta assim).

Narrado em primeira pessoa pelo Jack, o menino de 5 anos mais carismático de todos os tempos, o livro nos mantém diretamente ligados ao que o garoto sente, pensa e sabe. Enxergar a história inteira por meio dos olhos inocentes e curiosos de Jack é uma experiência nova e interessante, e a autora consegue manter durante toda a narração essa clareza: estamos ouvindo os pensamentos de uma criança de 5 anos.

"Escolhi a Colher Derretida, com o branco todo embolotado no cabo, de quando ela encostou sem querer na panela de macarrão fervendo. A Mãe não gosta da Colher Derretida, mas ela é a minha favorita, porque não é igual. Fiz carinho nos riscos da Mesa pra eles melhorarem, ela é um círculo todo branco, menos o cinza dos riscos, por causa de picar os alimentos." 
O Quarto é o mundo inteiro para Jack. As coisas que ele vê na Televisão, para ele, são coisas de outros planetas, inacessíveis, outros Quartos, de muitas outras dimensões. Jack é senhor desse mundo, profundo conhecedor de cada detalhe do Quarto, cada manchinha, cada detalhe, cada novidade mínima, cada trecho da rotina. Jack divide esse mundo com a Mãe e, eventualmente, com o Velho Nick, que aparece durante a noite, quando Jack já está dormindo no Armário, para fazer a Cama da Mãe ranger.

Quando sua Mãe conta para ele que o mundo é maior que o Quarto e apresenta ao menino um ousado plano de fuga, Jack sente seu universo se desfazer. Finalmente no Lá Fora, Jack vê tudo com olhos curiosos e tremendamente assustados. Tudo o que ele quer é voltar para o Quarto. Retornar ao único lugar que chamou de lar, e sobre o qual sua Mãe não quer nunca mais falar.

É estranho, essa é uma história pesada, que aborda situações traumáticas e extremas. Mesmo assim, um narrador tão inocente coloca as coisas em outra perspectiva. Essa mesma história poderia ter sido contada de mil maneiras diferentes e seria parecida com muitas outras. Seria chocante, dolorosa, provocaria todo tipo de reações. Mas, ao colocar Jack como narrador, ao colocar o leitor dentro da cabeça de uma criança tão original e inteligente, essa se torna uma história forte e poderosa sobre o amor que nos mantém de pé.

"Quarto" é um livro capaz de te prender até a última página. Em momento algum você quer deixar Jack sozinho no novo mundo em que ele precisa reaprender todas as coisas que achou que sabia. Jack e sua Mãe são personagens incríveis e inesquecíveis. Assim como o Quarto, um personagem ele próprio, povoando os sonhos de um e os pesadelos de outro.

Outro livro 5 estrelas, que mereceu o título de Melhor Livro do Ano pelo New York Times e pelo Independent.

Quarto O quarto de Jack Avaliação Resenha Ranking

Veja também o trailer de "O Quarto de Jack", indicado ao Oscar 2015 nas categorias Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Diretor e vencedor na categoria Melhor Atriz (Brie Larson):

15 de abril de 2016

[Resenha] O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares (ou: quase x-men, mas gótico)

Resenha Avaliação Comentário O orfanato da Srta. peregrine para crianças peculiáres (Original: Miss Peregrine's Home for peculiar children)

Título: O orfanato da Srta. peregrine para crianças peculiáres (Original: Miss Peregrine's Home for peculiar children)
Autor: Ransom Riggs
Editora: Leya
Ano: 2012

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Era uma vez uma casa enorme. Nessa casa, viviam muitas crianças e adolescentes que não eram comuns. Os moradores dessa casa são considerados esquisitos pelos vizinhos e a verdade é que são mesmo: cada um deles tem uma habilidade que os torna únicos - levitar, lançar chamas pelas mãos, prever o futuro, fazer as plantas crescerem... Para viver uma vida normal, eles seguem seus dias disfarçados do resto do mundo, aprendendo a controlar seus poderes e a viver sempre apoiando os seus iguais, sob a tutela preocupada de alguém adulto que também tem habilidades únicas.

Poderia ser X-Men, mas é o orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares.

O protagonista da história, o adolescente Jacob, de 16 anos, acaba de perder um avô de quem era muito próximo. Esse avô já estava sendo considerado senil pela família (e pelo próprio Jacob), assombrado por monstros invisíveis e repetindo sobre histórias do passado, em que ele dividiu a infância com crianças que voavam, eram super fortes ou invisíveis. O ponto de virada é justamente a morte trágica: nos derradeiros minutos, Jacob é capaz de ver o monstro que ele sempre acreditou ser fantasia. E é confrontado com a dúvida: e se todas as outras histórias que ele ouviu do avô na infância forem verdade?

O livro é todo ilustrado com fotos reais, ao estilo bizarro dos circos de horror antigos, que serviram de base para o desenvolvimento de muitos dos personagens centrais do livro. Enquanto acompanhamos a busca de Jacob pelo passado do avô, tentando entender o que é ou não real, nos pegamos descobrindo uma passagem mágica para um tempo diferente. O orfanato da srta. Peregrine está no passado, preso atrás de uma fenda que mantém todos os internos protegidos.

Enquanto se dá conta da imensa bagunça em que está metido, Jacob também é seduzido pelo mundo de esquisitices que encontrou do outro lado da passagem. Acolhido por todos e com poucos laços afetivos o prendendo no mundo presente, Jacob se descobre muito mais parte do mundo dos x-men góticos do que do seu próprio.

O garoto também se descobre peça central de uma luta contra uma ameaça assustadora que ele nunca imaginou existir.

O final do livro fecha um ciclo de aventuras e inicia outro, exatamente da forma como aventuras desse gênero costumam (e devem) terminar. Já quero ler a continuação e continuar acompanhando esses estranhos pequenos heróis em sua busca por sobrevivência, proteção e justiça.

A adaptação cinematográfica, sob a direção do adequadíssimo Tim Burton, já chegou aos cinemas. Pelo trailer já dá para ver que algumas coisas foram modificadas e adaptadas, Mas, no contexto geral da história, talvez isso não importe tanto.


Qual sua aposta? Um livro bem adaptado para as telas ou mais uma vez o livro vai ser melhor do que o filme?

12 de abril de 2016

[Resenha] As esganadas (ou: motivos para temer pasteizinhos de nata)

Título: As esganadas
Autor: Jô Soares
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2011

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Minha mãe chegou em casa com esse livro e me perguntou o que eu já tinha lido do Jô Soares. E fora alguns textos e frases soltos (de autoria questionável), eu não tinha lido nada. Foi uma ótima oportunidade de resolver isso.

Eu já tinha assistido a adaptação cinematográfica de um livro do Jô - O Xangô de Baker Street - e lembro de ter achado um pouco estranho. Essa coisa de misturar serial killers, história do Brasil, detetive lusitano e humor talvez seja característica dele, já que a estrutura se repete claramente em "As esganadas".

Sem paciência para grandes mistérios, nosso assassino e sua motivação já são revelados logo no início da história, assim como acompanhamos seus planos e triunfos ao longo da narrativa. As vítimas da vez são mulheres gordas, moradoras de um Rio de Janeiro dos anos 30 perfeitamente contextualizado pelo autor, seduzidas pela possibilidade de doces portugueses de graça.

Os personagens, de modo geral, são carismáticos e divertidos, pessoas que é fácil imaginar em um filme ou novela (mas não na vida real). Desde o caricato Tobias Esteves, nosso detetive lusitano, até os funcionários da delegacia, a jornalista charmosa e sagaz e a esposa-troféu, todos os personagens são exatamente isso: personagens, tipos bem estruturados e impossíveis, repletos de clichês e piadas.

É um livro sem grandes desafios, um entretenimento rápido e seguro, com personagens fáceis de reconhecer na nossa ficção.

Vale a leitura, mas não espere um livro de horror ou de mistério. Jô Soares é um comediante e nesse livro brinca com a morte e a crueldade como faria em uma esquete de TV.

8 de abril de 2016

[Resenha] O Pacto (ou: distopias adolescentes everywhere)

Título: O pacto (The declaration)
Autor: Gemma Malley
Editora: Rocco Jovens Leitores
Ano: 2009

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Eu acho que esse foi o primeiro livro em meses que eu li e achei médio. Não chega a ser ruim, mas tem um ritmo lento e um enredo que por mais promissor que pareça, não se desenvolve muito bem. Pega carona na onda de distopias adolescentes e bebe na fonte de histórias como "Jogos Vorazes" e "Feios", mas com menos profundidade.

O tal pacto, do título do livro, chegou depois de a humanidade desenvolver um tipo de droga que permite a imortalidade. Com isso, o mundo ficou cada vez mais populoso, já que as pessoas pararam de morrer. Em nome de economizar recursos, o pacto surgiu: ninguém mais poderia ser filhos, a menos que renunciasse à imortalidade.

Radical, a decisão gerou controvérsias e, aos poucos, a juventude real foi praticamente extinta. Filhos "ilegais", nascidos de pessoas que desrespeitaram o pacto, são tirados de seus pais e levados para grandes lares comunitários onde, sob torturas, ameaças e humilhações, aprendem que não tem direito ao mundo e, pelo contrário, estão em débito com ele. Por isso, os chamados "excedentes" são crianças sem sobrenome e sem autoestima, treinadas desde bebês para servirem aos Legais.

Protagonista da história, a Excedente Anna é exemplar.  Disciplinada, silenciosa e com uma autoestima invertida e impecável. Anna tem certeza de que não tem nenhum direito e mais certeza ainda de que precisa servir com dedicação total e resiliência absoluta. Uma perdida marionete do sistema, até a chegada de Peter, um rapaz misteriosos e rebelde com informações sobre o mundo lá fora.

Ou seja, até agora nada de novo sob o Sol. Uma mocinha que não tem a menor intenção de se rebelar, perfeitamente adaptada a um sistema que a oprime, e a-pessoa-que-desencadeia-a-mudança. Anna ao poucos (claro) se apaixona por Peter e os dois articulam uma fuga (claro) para se juntar a uma aliança rebelde que está disposta a reverter as coisas (claro).

Enfim.

As reflexões sobre as consequências que a imortalidade teria no nosso planeta são louváveis e até tornam a leitura um exercício interessante de filosofia. Mas é difícil destacar mais do que isso nesse livro.

O livro termina ainda com muitas pontas soltas e de maneira quase que previsível. A história é uma trilogia mas, a julgar pelo volume 1, não fiquei empolgada para continuar.

Você já leu? Tem uma opinião diferente da minha? Deixe aí nos comentários.

8 de março de 2016

[Resenha] Aniquilação (ou: Lost, só que mais estranho)

Tìtulo: Aniquilação (Original: Annihilation)
Autor: Jeff VanderMeer
Editora: Intrínseca

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Esse é um dos livros mais diferentes que eu já li. Embora eu consiga fazer algumas ligações com Lost e, de certos modos, me lembre o estilo do Stephen King, esse livro continua bem diferente de tudo que eu tenho lido.

E eu fiquei apavorada e presa nele até a última página.



 "Aniquilação" é o confuso primeiro volume da trilogia Comando Sul, de Jeff VanderMeer. Antes de qualquer outra coisa,  eu quero dizer que esse é o adjetivo da vez: confuso. Guarda essa palavra chave.

Começando pelo fato de as protagonistas desse volume não terem nome - são tratadas apenas como "a bióloga", "a psicóloga", "a antropóloga", "a topógrafa", etc -, a narrativa é linear mas demora a fazer sentido. Narrada pela bióloga dos tempos atuais, a história inteira já aconteceu e o que estamos lendo é o relato cru e sem tempero da bióloga em seu 'diário de bordo'.

A expedição da qual ela faz parte é uma iniciativa para conhecer melhor a Área X, um lugar que ninguém tem certeza de como funciona, de porque existe, de como se chega, enfim, um lugar que é isso mesmo: uma Área X onde nada faz muito sentido. Com uma natureza impressionante e assustadora, a expedição está em busca de 'informações' e não fica bem claro quais. E só isso mesmo. Vamos ali buscar umas informações nesse lugar misterioso e perigoso de onde ninguém volta são, apenas porque sim.

O que ninguém sabe - ou talvez saibam e seja tudo parte de um experimento - é que o marido da bióloga (que também não tem nome) foi membro de uma expedição anterior para a Área X e voltou bem malucão para logo morrer de câncer, como todos os membros que voltaram. Kinda creepy.

A história vai ficando mais densa, mais assustadora e mais (pega essa palavra chave) confusa. Conforme a narrativa avança, fica impossível parar de ler. Mesmo que cada nova informação traga mais perguntas do que respostas (meio Lost mesmo), não dá para não continuar.

O final deixa todas as pontas soltas e fica meio "ué", mas a experiência da leitura, pelo menos para mim, foi incrível. Fiquei tensa, mergulhei na história e me senti alerta a ponto de levar sustinhos com os barulhos da casa enquanto eu terminava de ler o último capítulo.

Já estou pronta para ler o volume 2 da trilogia, mas mesmo se eu continuar sem entender nada, as sensações desse livro já valeram a pena. Mal posso esperar para as próximas maluquices que o VanderMeer preparou!

Você já leu esse? Está lendo algum? Me conta nos comentários :)

28 de fevereiro de 2016

[Resenha] À sombra da figueira (ou: Poliana cambojana)

Título: À sombra da figueira (Original: In the shadow of the banyan)
Autor: Vaddey Ratner
Editora: Geração Editorial


Esse livro chegou às minhas mãos com uma indicação tão forte e bem recomendada que ele acabou passando a frente na fila. Não me arrependi em nenhum momento da leitura.Acho que essa é uma das histórias mais belamente escritas que eu já tive a oportunidade de ler. Forte, triste, tenso, tudo isso também. Mas acima de tudo: lindo.

O contexto histórico do livro - a ascensão do grupo comunista Khmer Vermelho no Camboja, que se transformou em uma das ditaduras mais sangrentas da História - é visto através da perspectiva de Raami, membro da família real cambojana, uma menina de 7 anos sensível e curiosa. A vida de Raami no palácio é cheia de cores, de vida e de pequenas alegrias, que ela vive e aproveita com doçura.

"(...) em uma profusão de sedas coloridas que quase ofuscou os pássaros e borboletas ao redor, reunímo-nos no pavilhão de jantar (...). Mais uma vez, mamãe havia se transformado, desta vez de borboleta em jardim. Todo seu ser germinava flores." (p.17)

Conhecendo sua vida e seu relacionamento com a família - a mãe, a irmã Radana, a Rainha Avó, os empregados e principalmente o pai -, é difícil acreditar no quanto as coisas mudam dali para a frente na história. Só não muda a maneira extremamente lírica e sensível com que Raami observa e sente o mundo onde está.

Arrancados de sua vida quanto o Khmer Vermelho toma o poder, Raami e a família são guiados para cada vez mais longe de sua casa, de sua cidade, de tudo o que conhecem. Uma jornada sem retorno começa mas, incentivada pelo pai poeta e fiel aos deuses e a Buda, a menina continua firme em seu propósito de enxergar além do que se vê. Uma versão cambojana da Poliana e seu jogo do contente.

"Conhecer vem de aprender; encontrar vem de procurar. Ficou claro para mim o significado da mensagem. Se eu olhasse o suficiente, se procurasse, encontraria o que estava procurando. Ali, no solo ensombrado da figueira de bengala, o templo abrigava pequenos reflexos do paraíso que havíamos deixado para trás" (p.94)

Em seu caminho, Raami se depara com violência, fome, cansaço e perdas. Sem tempo para se despedir de tudo que vai ficando cada vez mais distante, a menina vai se adaptando a realidades cada vez mais difíceis e solitárias, sem perder nunca a força e a empatia que ao mesmo tempo a conforta e a deixa aflita, querendo abraçar as dores do mundo.

"Big Uncle me deu um sorriso amarelo e por um momento esqueci minha infelicidade, pensando quão horrível era ser esse gigante com seu enorme sofrimento, sem ninguém para confortá-lo do jeito que eu, em minha pequenez, podia ser confortada". (p.291)

Narrado em primeira pessoa, de modo íntimo, pessoal e sincero, À Sombra da Figueira é um livro para mergulhar. É impossível ler e se manter indiferente aos sentimentos de Raami. Impossível não sentir suas dores e chorar suas perdas.

Mais doloroso ainda é ler a nota da autora, no final do livro, em que ela conta sua relação com a ditadura cambojana, que ela viveu aos 5 anos. Em parte autobiográfico, em parte tributo às tantas milhares de vidas perdidas, essa é uma história para guardar com carinho e revisitar sempre que possível.

Algumas histórias não podem nem devem ser esquecidas. Essa é uma delas.

21 de fevereiro de 2016

[Resenha] Mentirosos (ou: eu sei o que você fez no verão passado)

Título: Mentirosos (Original: We were liars)
Autor: E. Lockhart
Editora: Seguinte

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Eu li a sinopse e não entendi o que ia acontecer no livro. Comecei a história sem nenhum contexto, sem saber direito onde aquilo ia me levar. E me levou longe.


A narração tem como protagonistas os Sinclair, uma tradicional família rica americana, com todo o seu porte, sua pompa e seus segredos. Nós os conhecemos por meio de Cadence, a primeira neta do magnata Harris Sinclair, uma adolescente de 17 anos com um passado nebuloso.

Todos os verões, Cadence, sua mãe, tias e primos se reúnem na ilha particular (!) da família, para passar as férias todos juntos com os avós. Cady tem uma relação próxima com seus dois primos, Johnny e Mirren, e com Gat, o sobrinho adotivo de uma das tias. Os quatro tem a mesma idade e se encontram todos os anos para viver aquele mundo de sonho e de aventuras. A família os chama de "mentirosos".Com personalidades complementares, os Mentirosos formam um time imbatível.

"Nós quatro, os Mentirosos, sempre fomos.
Sempre seremos. 
(...)
Essa ilha é nossa. Aqui, de certo modo, somos jovens para sempre."
p.150

No verão dos quinze anos, Cadence sofre um acidente. Ela se lembra de poucos flashs da história, tem pequenos lampejos dolorosos de lembranças sobre as quais ninguém quer falar. Durante os dois anos seguintes, Cadence é impedida de ir para a ilha. Sem notícias, sem informações e sem contato com seus três melhores amigos, Cady sofre com o vazio de sua memória e com constantes dores de cabeça que a incapacitam por dias a fio. Cansada das negativas da mãe em recontar o que houve e do silêncio do restante da família, Cady insiste.

No verão dos dezessete, Cadence volta à ilha para tentar reconstruir sua memória e finalmente entender o que aconteceu.

Enquanto enfrenta seus fantasmas e busca por vestígios da própria história, Cadence vai aos poucos se dando conta de que a vida de sonho dos Sinclair também é uma vida de segredos, de renúncias, de perdas. Uma vida cercada de pequenas dores esmagadas por sorrisos forçados, roupas caras, status social. Os Sinclair vivem vidas reais que não tem espaço dentro dos limites da ilha. Se moldam para caber na realidade mitológica que criaram para si mesmos.

A estrutura do texto é fragmentada, com idas e voltas do passado, confusa como a mente de sua narradora. As linhas de raciocínio são frágeis e muitas frases ficam no ar, outras tantas só fazem sentido depois da resolução do mistério. Apenas uma amostra da bagunça interna de Cady.

A resolução do mistério cai como uma bomba. O que aconteceu no verão dos quinze deixou cicatrizes profundas e ainda faz eco em todas as decisões da família desde então. É um final que te abala, te confunde e deixa uma sensação de solidão. O preço que se paga para se manter a aura mística da família é tão alto que dói em todos os envolvidos - inclusive o leitor.

A obsessão de Cadence com os contos de fada é mostrada de uma forma ao mesmo tempo forte e delicada, assim como toda a narrativa alterna entre trechos líricos e brutalmente diretos. O livro é uma coleção de opostos e mesmo o final, com um enredo tão bem trabalhado que não poderia ser diferente, continua sendo inesperado. É um livro para despertar sensações e provocar reflexões. Com certeza vou procurar mais títulos da autora para ler! Essa é uma história que vai seguir comigo por um bom tempo.

Tem alguma sugestão de livro ou quer fazer algum comentário? Agora você pode manter contato comigo no Facebook! Curta a página do blog por lá: www.facebook.com/leiturasdaline ;)

13 de fevereiro de 2016

[Resenha] - O Livro do cemitério (ou: Os fantasmas se divertem)







Título: O Livro do Cemitério (Original: The Graveyard Book)
Autor: Neil Gaiman; ilustrações de Dave McKean
Editora: Rocco Jovens Leitores


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Comentei com uma amiga que queria ler os livros do Neil Gaiman, porque já era fã dele nos roteiros de Sandman e queria conhecer mais. Eis que ela me empresta "O Livro do Cemitério" e a sinopse já me prende: um bebê fugindo de um assassino que matou sua família entra em um cemitério e é acolhido e criado pelos habitantes (mortos) do lugar. E aí?

E aí que, com um autor comum, essa premissa podia levar para dois lados: 1) uma história carregada de suspense ou 2) uma comédia com os fantasmas vivendo grandes aventuras na sessão da tarde. Mas nas mãos de Gaiman a história cresce: os fantasmas são mais que fantasmas, o assassino é mais que um assassino, a criança é mais que uma criança. Em uma história para adolescentes, é bem legal a densidade e a humanidade que os personagens todos tem.

Acompanhando o crescimento de Ninguém (o nome do bebê) Owens (o sobrenome do casal fantasma que o adota), o que vemos é uma criança curiosa e disposta a saber mais sobre o mundo e como ele funciona. Comum em tudo, menos no fato de que o mundo que ele vive é o fantástico e o que ele fantasia é o que existe fora dos muros do cemitério.

Mistura de Rapunzel e Peter Pan, Ninguém - ou Nin - é um rapazinho que quer ver o mundo mas está muito bem, obrigado, do jeito que está. Com um mentor vampiro, pais fantasmas e uma "crush" que pensa nele como amigo imaginário, o menino está sendo caçado por uma seita de assassinos saída de um livro do Dan Brown. Nin entende um total de zero coisas da situação, e o leitor também. Mesmo depois das explicações, isso tudo é secundário. O foco fica inteiro no desenvolvimento emocional e intelectual de Nin, cercado dos personagens incríveis que foram enterrados ali.

A estrutura da história é uma sequência de crônicas do cotidiano do menino, embora não exista uma divisão clara disso. As várias pequenas histórias da vida de Nin entre os mortos se cruzam e tornam a história mais cheia de vida (desculpe o trocadilho). O resultado é um livro leve, com uma leitura dinâmica e muita personalidade. Ótimo companheiro para ler entre livros mais pesados e densos. :)

Destaque para as ilustrações LINDAS do Dave McKean que dão um belo descanso para a imaginação ilustrando trechos importantes da história.

Tem algum livro do Neil Gaiman para me indicar? Me manda que estou interessada! :D


9 de fevereiro de 2016

[Resenha] Toda luz que não podemos ver (ou: as pequenas histórias com as quais a História é feita)





Título: Toda luz que não podemos ver (Original: All the light we cannot see)
Autor: Anthony Doerr
Editora: Intrínseca

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Tinha um livro com capa azul na bancada da minha tia.  Ela me disse que era ótimo e recomendou que eu lesse. Eu não conhecia sequer a sinopse. E foi assim que acabei lendo e me apaixonando por um livro vencedor do Pulitzer, do qual eu nunca tinha ouvido falar.

(pausa para vocês rirem do quanto eu estava desinformada antes de lerem a minha resenha) 

A Segunda Guerra Mundial exerce um fascínio no mundo literário e cinematográfico que, nos últimos tempos, tem rendido boas histórias. Todo mundo quer escrever sobre a megalomania de Hitler, sobre o holocausto judeu, sobre aqueles que bateram de frente contra o Reich e pagaram o preço. Em Toda Luz que Não Podemos Ver, Anthony Doerr pega essa onda. Mas aponta seus holofotes para protagonistas simples e humanos que estavam apenas tentando seguir seus dias. Marie-Laure, uma menina cega francesa, e Werber, um menino prodígio alemão que acabou na guerra. A história cotidiana das pessoas que viveram a guerra em pontos distantes do poder.

A estrutura narrativa do livro é bem interessante. Um passeio pelo passado com breves flashs do presente. Você sabe exatamente onde os personagens vão chegar, em que situação eles se encontram no presente. A história se desenrola para que possamos descobrir de que maneira isso aconteceu.

Esse retorno ao passado nos permite visitar a infância de Marie-Laure em Paris, no museu em que seu pai trabalhava. Acompanhamos suas primeiras descobertas, seus primeiros anos de cegueira e as engenhosas soluções de seu pai para mantê-la capaz e independente. Pai e filha tem uma relação linda e é delicioso acompanhá-los em seus pequenos rituais. É esse o cenário que aos poucos transforma Marie-Laurie na garota forte, corajosa e segura que vemos enfrentando o presente.

"As mãos de Marie se movem incessantemente, juntando, investigando, testando. (...)Tocar alguma coisa de verdade, ela está aprendendo,(...) significa amá-la" (p.38)

Simultaneamente, assistimos a infância de Werner em um distrito pobre na Alemanha, em que todos os meninos se tornam adultos para trabalhar nas minas de carvão (exatamente o serviço que matou o pai do garoto). Werner e sua irmã Jutta, duas crianças de cabelos prateados e olhos violeta (quase Targaryens) vivem suas pequenas aventuras em um orfanato com mais crianças do que recursos, buscando nos descartes alheios seus tesouros e alegrias. Nesse cenário surge o primeiro rádio de Werner, a partir do qual toda a sua vida se abre para outras possibilidades, o que aos poucos conduz até o soldado inseguro, valioso e muito jovem a que somos apresentados logo no início.

"A Frau Elena diz que agora temos que vir  direto para casa depois da escola. Ela diz que não somos judeus, mas somos pobres o que é tão perigoso quanto ser judeu" (p.73)

A Guerra atinge a ambos de forma esmagadora, mas começa como um rumor distante e inofensivo. Uma mudança de endereço, um serviço especial do museu, algumas visitas ao orfanato, uma escola para alcançar possibilidades além das minas. A Guerra é um sussurro, algumas filas intermináveis e pêssegos cada vez mais difíceis de achar. Heil Hitler é só uma coisa que agora ele precisa repetir junto com as demais lições.

Em suas jornadas, tanto Marie quanto Werner encontram pessoas incríveis que a História não registrou. Muitas pequenas coragens, pequenas atitudes, pequenos passos que mudando a realidade. A Guerra longe dos centros de poder, no cerco à pacata Saint-Malo ou nas corridas em pequenos vilarejos europeus, mostra a face de quem sentiu a guerra sem compreender sua dimensão.

As ausências também são duramente sentidas nas vidas dos dois. Marie-Laure ainda ouve os conselhos do pai que não está. O julgamento de Jutta pesa nas escolhas de Werner mesmo meses depois da última carta recebida pela irmã. Os ausentes-presentes ajudam a dar forma e veracidade para esse romance melancólico e intenso.

Suas histórias se cruzam da melhor maneira que poderiam.

Toda Luz que Não Podemos Ver é uma leitura romanceada, com trechos poéticos e filosóficos, tocante e capaz de emocionar. Em meio aos clichês de romances da Segunda Guerra, uma história com fôlego renovado para explorar as sensações e sentimentos das pessoas comuns da época. Lindo!

29 de janeiro de 2016

Resenha - "Um mais um" (ou: Pequena Miss da Matemática)


 Ficha técnica
Título: Um mais um (Original: The one plus one)
Autor: Jojo Moyes
Editora: Intrínsica

(Se você não tem paciência para resenhas longas, tem uma mais curtinha no Instagram! :D )


Em 2015, mais ou menos nessa mesma época do ano, eu li "Como eu era antes de você", da Jojo Moyes. Ri e chorei horrores, adorei a história, recomendei para um monte de gente, me apaixonei por Lou e por Will. Daí, um ano depois, estou eu trocando livros emprestados com uma amiga e me chega esse "Um mais um", todo lindinho. Vi o nome da autora e pensei que bom, já que gostei tanto de "Como eu era...", talvez eu goste desse também. Mas não vai ter jeito de gostar deles mais do que gostei da Lou.

Mas daí tem. Tem sim como gostar mais desses personagens. Tem como se identificar com todos eles com uma ferocidade que gentedocéu. Tem como sentir vontade de entrar no livro para abraçar um por vez, dar um tapa na cabeça de todos, confortar todas as dores e dizer "te entendo".

O livro conta a história de Jess, uma moça jovem com responsabilidades demais e uma família pouco convencional, porém maravilhosa: Tanzie, sua filhinha de 9 anos que é um gênio da matemática, Nicky, seu enteado de 15 anos que é gótico e sofre bullyng, e Norman, o cachorrão da família que nunca aprendeu a buscar a bola no quintal. A família também (não) conta com Marty, o pai das crianças, que saiu de casa há dois anos e nunca mais apareceu.

Enquanto a gente está ali, vendo a Jess trabalhar noite e dia faxinando e sendo garçonete, enquanto as crianças tentam se enquadrar em vidas, a gente é apresentado ao Ed. Um dos clientes de faxina da Jess, que é um geek que se meteu na maior confusão da vida apenas porque não soube lidar com um término de namoro. Normal, quem nunca? A contracapa diz que eles se odeiam, mas a verdade é que eles sequer se conhecem. Jess tem problemas maiores que um patrão. Ed tem problemas maiores que a faxineira. Vida que segue.

Mas eis que chega o ponto de virada: Tanzie, a menina prodígio mais fofa de todas, ganha uma bolsa de estudos em uma escola incrível, onde ela vai poder alcançar todo o seu potencial! Maaaas... Para poder se matricular, a única chance da família é que a menina vença as olimpíadas de matemática. Dentro de 5 dias. Na Escócia. Pois é.

No meio de uma enorme confusão, enquanto Jess busca desesperada um modo de resolver os problemas (que é basicamente o que ela faz o tempo inteiro), Ed cruza o caminho da família. E oferece uma carona até as olimpíadas porque, poxa vida, não to fazendo nada mesmo e olha que graça de criança resolvendo equação. Ed, na verdade, está louco para fugir da própria vida e dos problemas enormes, e topa tudo por mais uns dias na estrada, tentando não pensar em nada.

A partir daí, o que rola é algo como Pequena Miss Sunshine, mas com matemática. A família inteira em função de um evento, todos os perrengues da viagem, um cachorro soltando pum (Norman, melhor cachorro). Nesse ambiente maluco, real e humano, vai surgindo um sentimento enorme, poderoso e justo. Vão se moldando relações e se descobrindo caminhos que podem mudar tudo.

Preciso dizer que eu fui me apaixonando junto. Quando comecei a ver para onde a história caminharia, imaginei clichês, dei uma desanimada. Mas Jojo, minha gente. Jojo conhece os caminhos do coração da gente e vai aos pouquinhos abrindo cada pedacinho dele. E a gente fica vulnerável, carente, saudoso. Se sentindo mais humano. 

Em vários pontos, a história dá guinadas surpreendentes, algumas de partir o coração, algumas que dão vontade de gritar diante da injustiça. Parece muito com a vida de gente normal, que sente e que luta todos os dias para não desistir. Você quer segurar a mão da Tanzie. Dar um like no blog do Nicky. Fazer um carinho na barriga do Norman. Dizer para Jess que ela é maravilhosa, mas precisa relaxar. E contar para o Ed que está tudo bem sentir medo, desde que a gente não pare de seguir em frente.

Essa é uma história para mergulhar. Uma história para focar toda a atenção e se permitir sentir. Quando eu terminei, quis imediatamente abraçar o livro. É isso que esse livro representa, no fim. Um abraço em todo mundo que está aí, vivendo vidas reais, errando e sentindo na pele as consequências ou enfrentando as injustiças com coragem e força. Um abraço em quem ignora as estatísticas e foca nas possibilidades.


Um mais um às vezes soma mais do que dois.